Artigo da seção pessoas DJ Dolores

DJ Dolores

Artigo da seção pessoas
Artes visuais / teatro / música  
| Local de nascimento: (Brasil / Sergipe / Propriá)

Biografia
Helder Aragão (Propriá SE 1966). DJ, produtor, compositor, designer e escritor. Filho de músico, é por intermédio do pai que, desde pequeno, tem acesso ao jazz, choro e músicas da tropicália. Na adolescência, muda-se com a família para Aracaju, momento em que se identifica fortemente com a cultura punk e a musicalidade de bandas inglesas, como The Clash e Sex Pistols. Em 1984, chega ao Recife e logo torna-se amigo do jornalista e músico Fred Zero Quatro, dos jornalistas Renato L. e Mabuse e do músico Chico Science, todos integrantes do que se consagra como a cena manguebit no início dos anos 1990, também nomeada pela crítica jornalística dessa época como manguebeat.

Apesar de não configurar como um gênero musical, há várias referências que influenciam esse grupo de amigos, como a música eletrônica, o hip-hop e o hardcore e ritmos folclóricos do Nordeste brasileiro, como maracatu, coco e ciranda. Além disso, inspira-se na literatura de ficção científica, nos quadrinhos e na obra dos cientistas sociais naturais do Recife Josué de Castro e Gilberto Freyre. Nesse período, Helder Aragão cria a dupla Dolores e Morales com o roteirista Hilton Lacerda em diversos trabalhos multimídia, como o projeto gráfico da capa do disco de estreia da banda Chico Science e Nação Zumbi, Da Lama ao Caos, lançado pela Sony, em 1994. Dolores, codinome adotado por ele, pertence a uma tia rabugenta de seu amigo e parceiro Lacerda. Paralelamente, como DJ Dolores, atua em festas organizadas na região portuária do Recife antigo. Cria o grupo DJ Dolores e Orchestra Santa Massa, em 1998, e lança o disco Contraditório?, em 2002. A banda se apresenta em importantes festivais nacionais e internacionais. A partir de então, a carreira de DJ Dolores se volta principalmente para o cenário europeu.

Desde o início da carreira, realiza trilhas para filmes, como Enjaulado, Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, Narradores de Javé; para peças de teatro, como A Máquina, de João Falcão; e para espetáculos de dança, como Desatino do Norte, para o Corpo de Baile do Teatro Municipal de São Paulo.

Em 2005, participa da coletânea Rip, Mash, Sample, Share, criada pela revista americana Wired, em parceria com o Creative Commons, para apoiar o projeto de flexibilização do copyright, e da qual também fazem parte músicos como o escocês David Byrne, criador da banda Talking Heads, o grupo americano de hip-hop Beastie Boys e o brasileiro Gilberto Gil. Nesse mesmo ano, lança o CD Aparelhagem, cujo título alude ao nome dado aos sistemas sonoros de bailes funk no Rio de Janeiro e tecnobrega em Belém. Produz, em 2008, o disco 1 Real, embebido da cultura dos vendedores ambulantes do Recife, em que há várias faixas compostas em inglês.


 
Comentário Crítico
A obra de DJ Dolores é identificada com a cena manguebeat que surge no Recife no início dos anos 1990. Além de criar o design do CD-manifesto da cena Da Lama ao Caos, de Chico Science e Nação Zumbi, faz o quadrinho Chamagnathus Granulatus Sapiens, presente no encarte do CD, com a história de recifenses que se transformam em caranguejos. As trilhas sonoras que realiza para os filmes Enjaulado, 1994, de Kleber Mendonça Filho, e A Máquina, 2005, de João Falcão, revelam parte de diferentes linguagens artísticas com as quais Dolores dialoga.

Ao contrário de muitos amigos músicos que formam grupos de rock, nesse período, DJ Dolores constrói uma carreira ancorada nas pistas de dança, firmada em circuitos internacionais de música eletrônica como o Festival de Verão Glastenburry, na Inglaterra, em que toca em 2005. Seu método de composição se realiza com amostras (samples) de diversas fontes sonoras e com o computador como ferramenta principal de criação. Seu trabalho é pautado na elaboração de beats (batidas) eletrônicos, que compõem uma base rítmica associada a uma linha de baixo, como o drum'n'bass, um estilo de música eletrônica que surge nas periferias de Londres, mixado a ritmos tradicionais do Nordeste brasileiro, como a embolada, a ciranda, o coco, num tom semelhante à produção dos DJs paulistas Marky e Patife, que ganham reconhecimento internacional pela fusão de drum'n'bass e bossa nova. Nos trabalhos mais recentes, se apropria de outros gêneros como o dub e o reggae jamaicanos, o kuduro angolano, o funk carioca e o hip-hop.

Na obra de Dolores, a música eletrônica é o modo de produção, um processo de instrumentação, não é a estética que define seu trabalho. O processo de criação parte da concepção, que é a programação de todo o disco em estúdio, utilizando softwares e bateria eletrônica, e posteriormente convida músicos de diferentes vertentes para dar forma ao projeto. Isso ocorre desde o primeiro CD, Contraditório?, de 2002, cujo título se inspira em um discurso de Gilberto Freyre. No disco está presente a música tradicional, rural e uma sonoridade de instrumentos elétricos e acústicos, fundidos aos timbres sintéticos da música eletrônica. A performance ao vivo de Contraditório?, com seu grupo, mostra a sincronia da programação e samples do DJ com a guitarra de Fábio Trummer, da banda Eddie, a voz da cantora Isaar França, que traz um estilo folclórico e afro, a rabeca de Maciel Salustiano, filho de Mestre Salustiano - referência importante da cultura popular de Pernambuco -, e a percussão e bateria de Mr. Jam. Nos álbuns seguintes, Aparelhagem, 2005, e 1 Real, 2008, ele mantém o mesmo processo de criação e produção, porém, com estruturas de banda diferente.

DJ Dolores é um defensor das políticas a favor do uso do software livre e modos alternativos de produção, por isso seu CD mais recente evoca as musicalidades dos carrinhos de camelô, como o forró, a suingueira, o tecnobrega. Esse é um dos motivos de ter participado do CD editado pela revista Wired, em 2005.

A partir desse ano, ele mantém um blog que reúne textos publicados em jornais e revistas em que dedica muitos de seus escritos relacionados ao tema da criação coletiva e novas tecnologias. Além da inspiração em diversos universos musicais, DJ Dolores usa referências literárias em suas letras e composições, que vão desde os já citados Gilberto Freyre e Josué de Castro até o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905- 1980) e o escritor francês Gustave Flaubert (1821 - 1880).

Como produtor, faz remixes para Gilberto Gil, Marisa Monte, Naná Vasconcelos, Otto, Fernanda Porto, os Tribalistas, o grupo romeno Taraf de Haidouks, o compositor e arranjador cubano Chico O' Farrill  e participa do CD Marítimo, de Adriana Calcanhotto.

Outras informações de DJ Dolores:

  • Outros nomes
    • Helder Aragão de Melo
    • Helder Aragão
  • Habilidades
    • pesquisador
    • Música
    • Instrumentista
    • compositor
    • autor

Espetáculos (2)

Exposições (1)

Eventos relacionados (2)

Fontes de pesquisa (11)

  • CORREA, Mauricio. Ensolarado Byte. Documentário. 2005.
  • LABESSE, Patrick. "DJ Dolores, um Brésilien qui fait danser invoquant Sartre". Le Monde. 27/02/2008. Disponível em: http://www.lemonde.fr/. Acesso em 01 set. 2010.
  • RAMALHO, Monica. "A MPB eletrônica de Dolores e Santa Masa". JB online. 16/10/2002. Disponível em: http://jbonline.terra.com.br/. Acesso em 01 set.2010.
  • SOUZA, Tárik de, "Aparelhagem". JB online, 15 de abril de 2005. Acesso em 01 set.2010.
  • WANDER, Edson. "A batida perfeita de DJ Dolores". Disponível em:http://www.cartamaior.com.11/05/2005. Acesso em 01 set. 2010.
  • CALAZANS, Rejane. "A lama, a parabólica e a rede". Tese de Doutorado UFRRJ 2008.
  • SILVEIRA, Roberto Azoubel da M. "Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar: o futuro como transcendência da miséria". In. Leituras sobre música popular: Reflexões sobre sonoridades e cultura. Emerson Giumbelli, Júlio Cesar Valladão Diniz e Santuza Cambraia Naves (orgs.). Rio de Janeiro. 7Letras, 2008.
  • Site oficial Governo de Pernambuco. Release de DJ Dolores. Disponível em: http://www.musicadepernambuco.pe.gov.br/release . Acesso em 02 set.2010.
  • TELES, José. "Quanto vale mesmo 1 Real?" Jornal do Comercio. 05/01/2008. Disponível em: http://jc3.uol.com.br/jornal/2008/01/05/not_264641.php 05/01/2008. Acesso em 02 set.2010.
  • TELES, José. Do Frevo ao Manguebeat. São Paulo Editora 34. 2000.
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Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • DJ Dolores. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopediaitaucultural.org.br/pessoa240468/dj-dolores>. Acesso em: 26 de Jul. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7