Artigo da seção pessoas Marcelo Gomes

Marcelo Gomes

Artigo da seção pessoas
Cinema  
Data de nascimento deMarcelo Gomes: 28-10-1963 Local de nascimento: (Brasil / Pernambuco / Recife)

Biografia
Marcelo Ferreira de Oliveira Gomes (Recife, Pernambuco, 1963). Cineasta, roteirista. Durante o curso de comunicação social, em Recife, entre 1989 e 1990, cria o Cineclube Jurando Vingar na sala José Carlos Cavalcanti Borges, atual sede do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco. Em 1991, ganha uma bolsa para estudar cinema na Universidade de Bristol, Inglaterra. Na volta ao Recife, funda, com os cineastas Adelina Pontual e Cláudio Assis (1955), a produtora Parabólica Brasil.

Em 1995, realiza o curta Maracatu, Maracatus , que trata do arcaísmo e da modernidade do maracatu. Recebe os os prêmios de Melhor Curta, Som Direto e Ator [Jofre Soares (1918-1996)] pelo Festival de Brasília. Em 1999, dirige Clandestina Felicidade, inspirado em Clarice Lispector (1925-1977), que recebe o prêmio de Melhor Curta no Festival de Gramado.

Em 2005, Marcelo Gomes estreia seu primeiro longa-metragem, Cinema, Aspirinas e Urubus, na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes. Inspirada num relato que ouve de seu tio sobre um representante comercial alemão que percorre o sertão nordestino na década de 1940, em plena guerra, fazendo projeções de cinema ao ar livre para vender aspirinas, a história rende-lhe, entre outras recompensas, um prêmio do Ministério da Educação da França. Realiza, em seguida, Era Uma Vez Eu, Verônica (2012), premiado no Festival de Brasília (Melhor Filme, Roteiro, Fotografia, Trilha Sonora, entre outros) e recebe Menção Honrosa na seção Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián.

A trajetória de Marcelo Gomes baseia-se em parcerias criativas. Um parceiro constante é o cineasta cearense Karim Aïnouz (1966), com quem escreveu o roteiro de Madame Satã (2002) e codirigiu Sertão de Acrílico Azul Piscina (2004) e de Viajo Porque Preciso,Volto Porque te Amo (2009), além de ter feito a vídeoinstalação Ah! Se a Vida Fosse Sempre Assim, exibida na Bienal de São Paulo em 2004. Com o cineasta e artista plástico mineiro Cao Guimarães (1965), Gomes dirigiu o longa O Homem das Multidões (2013), premiado no Festival de Cinema Latino-Americano de Toulouse, no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara e no Festival do Rio.

Análise
A obra de Marcelo Gomes articula, em diferentes modalidades, o local e o global, o arcaísmo e a projeção de futuro. Isso transparece no nome da produtora que o cineasta funda com Adelina Pontual e Cláudio Assis no início da década de 1990, a Parabólica Brasil, e marca sua produção subsequente. Realizado no ápice do movimento mangue-beat no Recife, o curta Maracatu, Maracatus marca a estreia de Marcelo Gomes como diretor e concilia raízes pernambucanas, culturais e históricas, com o interesse por fenômenos contemporâneos mundiais.

Cinema, Aspirinas e Urubus, Sertão de Acrílico Azul Piscina, e Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo constituem outra maneira de trabalhar a relação do sertão nordestino com o mundo, conjugando tradição e modernidade. Gomes investe no sertão como espaço mítico do cinema brasileiro, segundo ele “o nosso western”1. Por isso, são frequentes as comparações com o sertão retratado pelo Cinema Novo. Um exemplo dessa comparação está no trabalho de Adalberto Müller2, que ressalta semelhanças entre o sertão no cinema de Gomes e o sertão cinemanovista – estéticas relativas, por exemplo, à luminosidade excessiva dos filmes de Glauber Rocha (1939-1981) e Nelson Pereira dos Santos (1928). Há também diferenças: se a política tem forte presença nos filmes do Cinema Novo, ela tem participação discreta no cinema de Gomes.

Para Gomes, o sertão nordestino é um lugar afetivo, cheio de memórias de sua família. O roteiro de Cinema, Aspirinas e Urubus é criado com base na história de um tio-avô do cineasta que percorreu o semiárido na juventude como vendedor de medicamentos. Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo, realizado com Karim Aïnouz, adota a emoção como princípio de filmagem e montagem, de modo a manter no corte final planos embaçados e tremidos, contaminados pelos sentimentos do momento. O projeto era registrar a imagem de feiras do sertão, mas, durante as filmagens, essa ideia deu lugar a escolhas mais subjetivas: “No terceiro dia decidimos que não cumpriríamos o plano (...). Filmamos feiras mas se existia alguma coisa que nos emocionasse a gente parava e filmava e passava o dia. Como no encontro com a Pati. (...) Não existia um roteiro. Só um desejo de se perder através de emoções”3.

Apesar de algumas ressalvas, Era Uma Vez Eu, Verônica, longa que tem Hermila Guedes (1980) no papel da protagonista, foi aplaudido por estabelecer uma boa relação com as plateias. O filme a maneira quase tátil de filmá-la em alguns planos – como quando ela se deleita em um banho de mar, por exemplo. Diferente dos longas anteriores de Marcelo Gomes, é um filme urbano, que gira em torno das experiências de uma jovem médica de Recife cheia de dúvidas e resistências diante da vida adulta.

O crítico Ricardo Calil (1973)4 afirma “que o filme de Gomes consegue, à sua maneira, um feito espetacular: mais do que agradar o espectador, permanecer com ele”. Embora Inácio Araújo (1948)5 reconheça a presença de belas imagens, diz que o filme “percorreu apenas metade do caminho” e decepciona na comparação com o anterior. Já o crítico Fábio Andrade6 afirma que Gomes “chega em Era Uma Vez Eu, Verônica cheio de bons sentimentos, mas sem ter muita ideia de o que fazer”. De fato, não se trata de uma narrativa convencional, com arco dramático claro e bem desenvolvido, mas uma reunião de situações que interessam pelo esmero com que são encenadas, mais do que pela presença no roteiro.

Marcelo Gomes é uma das figuras-chave do cinema brasileiro contemporâneo, tanto por suas realizações individuais, concentradas no contexto pernambucano, quanto por suas parcerias com Karim Aïnouz e Cao Guimarães, que rendem obras de envergadura.

Notas:
1 GOMES, Marcelo. Entrevista concedida a Jean-Claude Bernardet. Maio de 2010. Disponível em: < http://jcbernardet.blog.uol.com.br/arch2010-05-02_2010-05-08.html >. Acesso em: 10 out. 2015.

2 MÜLLER, Adalberto. Cinema (de) novo, estrada, sertão : notas para (se) pensar Cinema, aspirinas e urubus. LOGOS 24: cinema, imagens e imaginário. Rio de Janeiro, Ano 13, 1º semestre 2006.

3 GOMES, Marcelo. Entrevista concedida a Jean-Claude Bernardet. Maio 2010. Disponível em: < http://jcbernardet.blog.uol.com.br/arch2010-05-02_2010-05-08.html >. Acesso em: 10 out. 2015.

4 CALIL, Ricardo. Crítica: ‘Era uma vez eu, Verônica’ mais do que agrada o espectador, fica com ele. Folha de S. Paulo, São Paulo, 15 nov. 2012.

5 ARAÚJO, Inácio. Verônica. Blog do Inácio Araújo, 21 nov. 2012. Disponível em: < http://inacio-a.blogosfera.uol.com.br/2012/11/21/veronica/ >.

6 ANDRADE, Fábio. “Era uma vez”, Cinética, setembro de 2012, disponível em < http://www.revistacinetica.com.br/eraumavezeuveronica.htm >.

Outras informações de Marcelo Gomes:

  • Outros nomes
    • Marcelo Ferreira de Oliveira Gomes
  • Habilidades
    • cineasta
    • roteirista

Obras de Marcelo Gomes: (1) obras disponíveis:

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Fontes de pesquisa (13)

  • ALMEIDA, Miguel de. Entrevista: Marcelo Gomes. SescTV. Contraplano, Sala de cinema, 2010. Disponível em: < http://contraplano.sesctv.org.br/entrevista/marcelo-gomes/ >
  • ANDRADE, Fábio. Era uma vez. Cinética, set. 2012. Disponível em: < http://www.revistacinetica.com.br/eraumavezeuveronica.htm >. 
  • ARAÚJO, Inácio. Verônica. Blog do Inácio Araújo, 21 nov. 2012. Disponível em: < http://inacio-a.blogosfera.uol.com.br/2012/11/21/veronica/ >.
  • BERNADET, Jean-Claude. Entrevista Marcelo Gomes e Karim Ainouz. Blog do Jean Claude, maio 2010.Disponível em: < http://jcbernardet.blog.uol.com.br/arch2010-05-02_2010-05-08.html >. 
  • CALIL, Ricardo. ‘Era uma vez eu, Verônica’ mais do que agrada o espectador, fica com ele. Folha de S. Paulo, São Paulo, 15 nov. 2012. Crítica. 
  • CAVANI, Júlio. Filme do pernambucano Marcelo Gomes é exibido no Festival de Berlim. Diário de Pernambuco, Recife, 8 fev. 2014. 
  • CAVANI, Júlio. Filme do pernambucano Marcelo Gomes é exibido no Festival de Berlim. Diário de Pernambuco, Recife, 8 fev. 2014. 
  • MÜLLER, Adalberto. Cinema (de) novo, estrada, sertão : notas para (se) pensar Cinema, aspirinas e urubus. LOGOS 24: cinema, imagens e imaginário. Rio de Janeiro, Ano 13, 1º semestre 2006.
  • MÜLLER, Adalberto. Cinema (de) novo, estrada, sertão : notas para (se) pensar Cinema, aspirinas e urubus. LOGOS 24: cinema, imagens e imaginário. Rio de Janeiro, Ano 13, 1º semestre 2006.
  • O EXISTENCIALISMO tropical do cineasta Marcelo Gomes. Revista de cinema, São Paulo, 21 nov. 2012.
  • OMELETE. Omelete entrevista: o diretor de Cinema, Aspirinas e Urubus. Omelete, São Paulo, 10 nov. 2005.
  • SETTE, Leonardo. Amadurecendo jovens personagens. Marcelo Gomes, diretor de Cinema, Aspirinas e Urubus, fala sobre seus novos projetos. Cinética, set. 2008. Disponível em: < http://www.revistacinetica.com.br/entmarcelogomes.htm >.
  • VALENTE, Eduardo. O primado da ficção. Cinema, Aspirinas e Urubus. Contracampo, Rio de Janeiro, n. 75/76. Disponível em: < http://www.contracampo.com.br/75/cinemaaspirinas.htm >.

Como citar?

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  • MARCELO Gomes. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopediaitaucultural.org.br/pessoa13948/marcelo-gomes>. Acesso em: 19 de Ago. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7