Artigo da seção grupos PITU

PITU

Artigo da seção grupos
Teatro  
Data de criação da obra PITU: 1976 Local de crição: (Brasil / Distrito Federal / Brasília) | Data de término 1981

Histórico

Grupo de grande destaque no contexto artístico de Brasília na década de 1970, momento no qual o movimento teatral se intensifica na capital brasileira, apesar da repressão política, da censura, e dos poucos espaços para ensaios e apresentações. É um dos períodos com maior número de grupos de teatro na cidade segundo a Federação de Teatro Amador do Distrito Federal (FETADIF), com mais de cem grupos registrados, como "um pequeno movimento que vai se intensificando com o passar dos anos, ainda com uma forte marcação da censura. O teatro de Brasília na década de 1970 foi feito por uma primeira geração de 'brasilienses-não brasilienses', pessoas que começam a se identificar como brasilienses e que trazem para cidade e/ou mesmo têm em Brasília sua formação profissional."1

Dirigido por Hugo Rodas (1939), o Pitú reúne integrantes de outros grupos da cidade. Entre eles, Iara Pietricovsky (1954), Guilherme Reis (1954), Dimer Monteiro (1950), Antonio Herculano, Johanne Hald Madsen, Tânia Botelho, Néio Lúcio, Renato Matos, Keila Borges, Tânia Costa, Eliane Arruda. O grupo possui constante fluxo de membros. Rodas observa que "Aos poucos as pessoas foram chegando, se interessando e tomando consciência do trabalho. Sem exigência de nenhuma experiência, apenas com o propósito de abertura de cada um." 2

O nome do grupo é definido com inspiração na aguardente Pitú porque se relaciona muito bem com o modo de vida e tempo em que vivem, em relação sintetizada por Rodas: "Pitú: cachaça, grupo de amigos, dança, pintura, karatê, literatura, música, procurando um mesmo ponto, trabalhar com a maior lucidez possível, com a maior autenticidade possível." 3

O Grupo compõe um coletivo híbrido configurado pela montagem de espetáculos que intercalam teatro e dança. Explora um teatro coreográfico e articula a palavra e o texto com o movimento e o gesto, buscando explorar ao máximo as habilidades do ator, focando em todas as potencialidades do corpo e da voz. Esse é um trabalho que Hugo Rodas dá continuidade no Pitú, seguindo as influências de trabalhos anteriores com seus conterrâneos, o diretor Omar Grasso (com fortes referências do diretor polonês Jerzy Grotowski) e a bailarina Graciela Figueroa, que utilizam conceitos de dança teatro, visando atores bailarinos que buscam uma interpretação com ênfase na fisicalidade e visceralidade. Ainda no momento de repressão no Brasil, o grupo usa o gesto e a coreografia, ao invés do texto escrito, como forma de demonstrar o que sentem e o que querem expressar, e de também driblar a censura.

Em 1976 o Pitú realiza o Trabalho nº1, também intitulado com o Dança. Nele,  relaciona os movimentos cotidianos de cada ator bailarino com suas preocupações de caráter universal, como as questões das guerras e repressões. Apresentam-se no Teatro Galpão, e também em espaços alternativos como na pracinha do parque Olhos D'Água e na Feira da Torre de Televisão em Brasília. Sem figurinos ou cenários, o espetáculo se desenvolve com gritos primários e sons percurssivos produzidos pelo próprio corpo.

No ano seguinte apresentam o Trabalho nº 2, que segue o mesmo estilo, porém com maior apuro técnico. O trabalho é novamente realizado a partir da vivência do grupo e baseado no cotidiano do mesmo.  O interesse do grupo é aprimorar suas qualidades interpretativas, adquirir uma linguagem comum e transmitir isto de forma mais contundente.

Ainda em 1977 estreiam Os Saltimbancos, primeira obra do Pitú que atinge maior número de espectadores e conquista o público de todas as idades.  Ganha o prêmio de Melhor Espetáculo Infantil do Ano pelo Serviço Nacional do Teatro. Com figurinos simples e banda musical, a interpretação continua focada na expressão corporal e no canto. A experiência e repercussão adquiridas com esse trabalho são fundamentais para a sequência das montagens do coletivo. É uma realização importante para a consolidação do grupo.

Em 1978, Trabalho nº 3 tem participação da banda de rock Tellah e segue a mesma linguagem dos Trabalhos anteriores, buscando mostrar o cotidiano por meio da dança contemporânea e da interpretação teatral. Organiza-se a partir de esquetes construídos por movimentos e desencadeados em uma ordem coreográfica de quadros e imagens com exploração sonora e cinética em diferentes ritmos. Após uma aceleração dos movimentos, os quadros se desenvolvem em ordem: a festa, busca pelo som e movimento comuns; a regressão, quando retornam ao estado primitivo; o parto, em que se descobre o mundo por meio dos sentidos; a antropofagia e sequências de movimentos de pedir e comer.

Ainda em 1978 o grupo viaja pelo Brasil com Trabalho nº 3 e o apresenta no II Concurso Nacional de Dança Contemporânea, em Salvador, onde ganha Menção Honrosa. Em seguida o Pitú apresenta o mesmo espetáculo e Os Saltimbancos no Instituto Goethe da capital baiana. Com essas duas criações o coletivo também percorre Ouro Preto e Belo Horizonte em Minas Gerais.

A próxima produção do grupo é O Noviço em 1979, com apoio financeiro da Fundação Cultural do Distrito Federal.  Monta a encenação em apenas quarenta dias de trabalho exaustivo, sendo um dos espetáculos que inaugura a Sala Martins Pena do Teatro Nacional, em Brasília. O texto de Martins Pena é adaptado para um musical alegre e crítico, que aproveita o potencial sarcástico da peça, aborda a crescente demanda pela anistia, a situação da mulher na sociedade, o confronto de gerações e a corrupção em diferentes instituições sociais. A montagem tem seus cartazes censurados e proibidos. Em O Noviço, o Pitú utiliza mais elementos cenográficos e figurinos, associados à direção e interpretação mais experientes, que buscam aprimorar também o desempenho musical.

Ainda em 1979 estréia Arroz com feijão no III Concurso Nacional de Dança Contemporânea, em Salvador. Depois viaja pelo Rio de Janeiro e Minas Gerais, antes de apresentar a nova montagem em Brasília. As novas viagens demonstram a repercussão nacional que o Pitú alcança.  Essa peça retoma a estrutura mais próxima dos Trabalhos, com suas esquetes organizadas em sequências e a temática recorrente sobre o processo individual e a vivência de cada um na coletividade, grupal e social.  Na sinopse do espetáculo, o grupo resume: "Arroz com Feijão... Acordar, sair pro trabalho, morrer de tédio, matar o patrão e o pai nosso de cada dia, rir, amar e odiar com os companheiros do trabalho, pois esse é o tempo de abertura. Sentir-se bobo... e forte. Mas no fim do dia, render culto a Dionísio, passear pelo campo Elísio e voltar na contra-mão que ninguém é de ferro."4 Os quadros são o amanhecer, os secretários, a cozinha, a construção e o boteco, unidos por poemas de Nicolas Behr e músicas de Gonzaga Júnior, Renato Matos, Hugo Rodas e Silvinha Escorel.

Em 1980, duas estreias. Na primeira, Os Pitutinhos, a costumeira reflexão sobre as realidades dos integrantes do Pitú inclui suas infâncias e a de seus filhos. O grupo se investiga enquanto crianças e adultos em confronto, discutindo as visões de reprimidos e repressores. Expressam a ânsia de liberdade, de cantar a vida, sem perder a consciência de suas dificuldades. Dirigida principalmente ao público adulto, também conquista as crianças com momentos de brincadeiras, com tons mais oníricos. 4 x 4 é o segundo espetáculo, dividido em duas partes. A primeira parte é 4 x 4, inspirado nos quatro elementos fundamentais: terra, ar, água e fogo.  A parte seguinte, Como vai você, dialoga entre as estruturas familiares, a estrutura tradicional e um plano de sonho. Em ambos estão presentes, um certo tom kitsch, além de coreografias, música e interpretações vigorosas, permeadas de tons líricos e de ironia. 4 x 4 busca abordar a revolta diante da opressão, do amor entre homens, entre mulheres e entre ambos, focalizando o poder, as relações sociais e a decadência cultural.

Em 1981, a decisão de Hugo em mudar-se para São Paulo reduz o coletivo à sua menor composição, com o diretor, Antonio Herculano, Marga Maria e Mercedes Alvim. Com a supervisão de Antônio Abujamra e adesão dos atores amadores Alcides Cabelo e Gerty Segger, montam Fala Lorito!, inspirado em poemas de Brecht, em parceria com o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). O grupo aborda o cotidiano e as contradições dos indivíduos, incluindo o amor, a raiva, a fraqueza e o mal-estar, mantendo a visão crítica e ácida sobre a sociedade.

Depois dessa montagem, o Pitú se desfaz em 1981. Enquanto Hugo e Cabelo optam por ficar em São Paulo e Herculano no Rio de Janeiro, Marga e Mercedes voltam à Brasília, integram o Grupo de Teatro Cabeças, criam o grupo musical-performático As Ministéricas e depois fazem parte do núcleo base do Grupo Vidas Erradas.

Por todos os trabalhos realizados, o Pitú é formador de artistas e de plateia, principalmente em Brasília. E por seus diversos contatos com as artes em outras regiões do país, também traz para a capital brasileira outras perspectivas artísticas, do intercâmbio que mantém com grupos tais como a companhia de dança carioca Coringa e o Asdrúbal Trouxe o Trombone, ou de artistas como Abujamra, Graciela Figueroa, Hamilton Vaz Pereira e outros.

Notas

1. CARVALHO, Eliezer Faleiros. Breve panorama histórico do teatro brasiliense. In: VILLAR, Fernando Pinheiro e CARVALHO, Eliezer Faleiros de (orgs.). Histórias do teatro brasiliense. Brasília: Artes Cênicas - IdA/UnB,  Brasília, 2004, p.30.

2. Sem autor. Jornal de Brasília, Suplemento, 30 ago. 1977

3. O Noviço, mesmo sem cartaz, é sucesso. Jornal de Brasília, Serviço, 12 abril 1979. p.19.

4. Folheto do espetáculo. [Acervo pessoa do Artista]

Outras informações do grupo PITU:

  • Outros nomes
    • Grupo Pitú
    • Grupo Teatral PITÚ
    • PITÚ

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Fontes de pesquisa (5)

  • O Noviço, mesmo sem cartaz, é sucesso. Jornal de Brasília, Serviço, 12 abril 1979. P. 19.
  • RODAS, Hugo. Hugo Rodas. Brasília: [s.n.], 2011. Entrevista concedida a Angélica Souza e Silva.
  • RODAS, Hugo. [Acervo pessoal do artista].
  • Sem autor. Jornal de Brasília, Suplemento, 30 ago. 1977. s/p. Rodas, Hugo. [Acervo pessoal do artista].
  • VILLAR, Fernando Pinheiro e CARVALHO, Eliezer Faleiros de (Orgs.). Histórias do teatro brasiliense. Brasília: Artes Cênicas - IdA/UnB,  Brasília, 2004.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • PITU . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopediaitaucultural.org.br/grupo610501/pitu>. Acesso em: 26 de Jul. 2017. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7